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Duas mudanças de regra, uma consequência só: o preço que dava lucro em fevereiro pode estar dando prejuízo agora, e o relatório de vendas não avisa.
Numa venda de R$ 5.000 no plano de 20%, a taxa da Shopee saiu de cerca de R$ 104 para cerca de R$ 1.026. É o mesmo produto, o mesmo preço, o mesmo cliente. O que mudou foi a regra.
A Shopee alterou a cobrança a partir de março de 2026 em dois pontos, e os dois puxam para o mesmo lado. Quem anota comissão numa planilha uma vez e confia nela pelo resto do ano tem hoje um número errado no lugar mais caro possível: no preço.
1. O teto de comissão acabou. A comissão por venda era limitada a R$ 100. Agora não tem teto: o percentual incide sobre o valor cheio, sem travar.
2. A taxa fixa por item deixou de ser única. Era R$ 4,00 para qualquer faixa de preço. Passou a ser escalonada:
até R$ 79,99 ......................... R$ 4,00
de R$ 80,00 a R$ 99,99 ...... R$ 16,00
de R$ 100,00 a R$ 199,99 ... R$ 20,00
acima de R$ 200,00 ............. R$ 26,00
3. A comissão percentual não mudou: segue em 14% ou 20%, conforme o plano do vendedor.
A alta de 550% é a da taxa fixa na faixa mais alta: de R$ 4,00 para R$ 26,00 por item vendido.
O teto de R$ 100 funcionava como um desconto progressivo silencioso. Quanto mais caro o produto, menos a comissão pesava em percentual, porque ela parava de crescer a partir de um certo preço.
Esse ponto é fácil de achar. No plano de 20%, a comissão chegava aos R$ 100 num preço de R$ 500 (R$ 100 ÷ 0,20). No plano de 14%, chegava em R$ 714,29 (R$ 100 ÷ 0,14). Acima disso, a comissão ficava congelada: vender a R$ 1.000, a R$ 3.000 ou a R$ 5.000 custava os mesmos R$ 100.
É por isso que a conta da venda de R$ 5.000 muda tanto. Antes, no plano de 20%: R$ 100 de comissão travada mais R$ 4,00 de taxa fixa, cerca de R$ 104, ou 2,08% do preço. Agora: 20% de R$ 5.000 são R$ 1.000, mais R$ 26,00 de taxa fixa, cerca de R$ 1.026, ou 20,52% do preço. São 18,44 pontos de margem que trocaram de lado sem que nada na sua operação tenha mudado.
Quem vende eletrônico, móvel, equipamento, kit profissional ou qualquer coisa acima de R$ 500 estava, na prática, operando com uma comissão efetiva de um dígito. Essa vantagem sumiu de uma vez.
Quem vende entre R$ 80 e R$ 200 não sentiu o fim do teto, porque nunca chegava nele. Sentiu a outra mudança, e ela pesa mais do que parece, porque a taxa fixa é um valor em reais sobre um preço pequeno.
Exemplo ilustrativo, aplicando as regras acima a um produto de R$ 150 no plano de 20%, considerando só comissão e taxa fixa:
Antes
Comissão (20% de R$ 150) ....... R$ 30,00
Taxa fixa por item ...................... R$ 4,00
Total ......................................... R$ 34,00 (22,67% do preço)
Agora
Comissão (20% de R$ 150) ....... R$ 30,00
Taxa fixa por item (faixa de R$ 100 a R$ 199,99) .... R$ 20,00
Total ......................................... R$ 50,00 (33,33% do preço)
Diferença: R$ 16,00 por unidade, 10,67 pontos de margem. Numa loja que vende 300 unidades desse produto por mês, são R$ 4.800 que antes ficavam na loja.
Se a sua margem nesse produto era de 12%, ela virou 1,33%. Se era de 9%, a venda passou a dar prejuízo. E nada no painel de vendas fica vermelho quando isso acontece: o pedido entra, a nota sai, o estoque baixa, o número de vendas sobe.
Taxa em faixa cria um degrau, e o degrau fica exatamente onde muita loja gosta de precificar.
Um item anunciado a R$ 79,99 paga R$ 4,00 de taxa fixa. O mesmo item a R$ 80,00 paga R$ 16,00. Um centavo a mais no preço custa R$ 12,00 a mais de taxa. O mesmo acontece, em menor escala, ao passar de R$ 199,99 para a faixa acima de R$ 200: mais R$ 6,00 de taxa fixa por um centavo de preço.
Na prática isso significa que existem preços que não fazem sentido praticar. Ainda no exemplo ilustrativo do plano de 20%, olhando só comissão e taxa fixa: a R$ 79,99 sobram R$ 59,99 depois dessas duas linhas (R$ 79,99 menos 20% menos R$ 4,00). Para voltar a sobrar os mesmos R$ 59,99 dentro da faixa seguinte, o preço precisa chegar a R$ 94,99. Ou seja, anunciar entre R$ 80,00 e R$ 94,98 devolve menos dinheiro do que anunciar a R$ 79,99.
É uma faixa de quinze reais de preço onde subir o valor piora o resultado. Quem faz reajuste de 5% ou 10% no catálogo inteiro, de uma vez, empurra produto para dentro dela sem ver.
1. Separe o catálogo por faixa de preço, nas mesmas quatro faixas da tabela. É aí que o problema está distribuído, não por categoria nem por fornecedor.
2. Recalcule o preço mínimo de cada produto com a taxa fixa da faixa dele e a comissão do seu plano, sem teto. A taxa fixa é custo em reais, entra na conta junto com produto, embalagem e frete, não no percentual.
3. Liste os SKUs que ficaram abaixo do mínimo. Esses estão vendendo no prejuízo agora, e cada unidade vendida aumenta o prejuízo.
4. Olhe quem está entre R$ 80,00 e R$ 94,98 e quem está logo acima de R$ 200,00. São os preços com pior relação entre valor anunciado e valor recebido.
5. Reveja o que está em campanha com cupom. Um cupom que derruba o preço para outra faixa muda a comissão e mantém a taxa fixa alta ou a reduz: o resultado não é proporcional e precisa ser conferido caso a caso.
6. Anote a data da regra. Comparação de margem entre janeiro e abril deste ano não é comparação de operação, é comparação de tabela de taxa.
A conta do passo 2 está aberta, linha por linha, em como calcular o preço mínimo de venda no marketplace. O roteiro de quando e como refazer esse número toda vez que um canal muda a regra está em como recalcular o preço mínimo quando o marketplace muda a regra no meio do ano.
Mudança de taxa é rotina de marketplace. Vai acontecer de novo, em outro canal, com outro nome, e provavelmente num mês em que você está ocupado com outra coisa.
O que decide o tamanho do estrago não é a mudança, é quanto tempo a sua operação leva para perceber. Loja que calcula preço mínimo à mão, numa planilha alimentada quando dá, descobre no fechamento do trimestre. Loja em que o repasse de cada pedido é conciliado automaticamente vê a margem real cair na semana da mudança, com nome de produto e nome de canal.
É essa a lógica que a Navega está levando para o Radar: pedidos e custos entrando por integração, extrato de repasse de cada canal conciliado pedido a pedido, e o preço mínimo sugerido atualizado ao lado do preço praticado, com alerta quando um cruza o outro. Para entender a conta completa por trás disso, leia como calcular o lucro real de cada venda.
E para conferir hoje, com um produto seu, se o preço aguenta a taxa nova: a calculadora de precificação do Radar é grátis.
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Conhece uma operação que precisa organizar os números? Apresente a gente.